0432 - Parallele - Gigliola Cinquetti [1978]

Não há paralelos para descrever a vida de Belchior. Dos compositores brasileiros que aprecio, o rapaz latino americano de bigode indefectível é único. Digo isso não como um crítico. Muito menos sou “entendido” sobre música. Como ouvinte, humano e apreciador de música, consigo sentir a alegria, o frescor da juventude, as inquietudes e as tristezas nos versos do poeta e compositor cearense.

Belchior estava vivendo no sul do país com sua companheira, em um mundo paralelo, quase se escondendo de tudo e de todos. Talvez, os holofotes do show business não eram mais aprazíveis para ele. Aliás nunca foram. Ficou recluso e muito se especulava a respeito, com várias histórias sendo inventadas. Mas a história verdadeira é que seu isolamento seguia e, paralelamente, da família e dos amigos se afastava dia após dia. Nunca saberemos seus motivos, mas sejam quais forem, eles pertencem a Belchior e é preciso respeitá-los.

Por mais que, na vida atual, Belchior tentasse só a fuga, as paralelas sempre acabam se encontrando no infinito como fora postulado na matemática. Como a vida não é precisa, diria outro poeta, assim se deu no dia 30 de abril de 2017, por vias indesejáveis, mas que não se pode escapar: as paralelas se encontraram. Belchior morreu. Para sua terra natal ele voltou, e sua vida e obra reencontraram o público, seus verdadeiros fãs, rendendo bonitas homenagens Brasil afora.

Este reencontro fez reavivar, na nossa memória, todas as canções eternas do artista. Agora, ele se foi, mas suas letras seguem paralelamente a sua vida terrena. Pois quantos artistas brasileiros eternizam e eternizaram suas canções? É o caso de Paralelas, umas das principais canções de sua carreira lançada no disco Coração Selvagem de 1977.


Esta linda canção recebeu versões de Erasmo Carlos, Vanusa, Elba Ramalho e Zé Ramalho, dentre outros. Mas em 1978, ela “cruzou” a vida da italiana Gigliola Cinquetti. Naquele ano, a cantora, atriz e apresentadora de TV gravou o disco Pensieri di donna (Pensamentos de mulher), que traz Parallele, uma versão em italiano de Paralelas. A adaptação da letra para o idioma da terra da bota foi concebida pelo letrista Sergio Bardotti e não foge da temática da versão original. Outra curiosidade desse álbum é que Belchior contribuiu também para uma adaptação para o português da canção Tu sei di me do cantor e compositor italiano Umberto Tozzi. A versão ganhou o título Fruta Flor Matutina e conta com um arranjo bossa nova bem interpretado por Gigliola.

Voltando à cover, a interpretação de Parallele por Gigliola é magnifica. A suavidade de sua voz consegue trazer uma sensação de melancolia, mas sem o peso da tristeza. A introdução dos teclados nesta versão chega a lembrar uma outra canção italiana, La Notte, gravada recentemente pela cantora Arisa e que recebeu uma cover em português gravada por Tiê.


Acredito que Parallele é uma das poucas (se não a única) versão de uma canção de Belchior para um idioma diferente do português. Dizem que nos seus últimos dias, Belchior estava trabalhando na tradução de sua obra completa para o espanhol. Daí o mundo latino americano já poderia se aprochegar da obra deste gênio. Mas por ora, não teremos acesso a essas adaptações. Talvez, quem sabe, um dia no infinito. O infinito é você Belchior. Descanse em paz!

Persiolino

4 comentários:

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    1. Valeu Ale...contei com uma ajudinha da revisora Lucie!

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    1. Gigliola produziu muitos sucessos na Itália né? Agora, foi surpreendente conhecer esta cover de Belchior!

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