Cover Records - A origem da canção Meu Limão, Meu Limoeiro e suas versões

Quem nunca ouviu os versos: "Meu Limão, Meu Limoeiro / Meu pé de jacarandá / Uma vez tindolelê / Outra vez tindolalá"? Se você tem filhos pequenos pode até pensar que esta música foi feita especialmente para o disco Os Sucessos da Galinha Pintadinha Volume 1000, só que não...

Meu Limão, Meu Limoeiro foi uma das canções brasileiras mais famosas no mundo. Hoje poucas pessoas se lembram dela - excetuando as crianças que gostam de Galinha Pintadinha. Existem registros de covers em diferentes partes do globo e, obviamente, em adaptações para diferentes idiomas, inclusive para o finlandês como veremos mais adiante.

Se você perguntar para as pessoas nascidas na década de 50 ou 60 no Brasil, elas lhe dirão com convicção que essa canção é do Wilson Simonal. De fato, graças ao sucesso obtido aqui e em outros países da América Latina, não é de se estranhar tal afirmação.

A primeira gravação de Simonal para Meu Limão, Meu Limoeiro é de 1966, lançada no disco Vou Deixar Cair, quinto álbum de estúdio da carreira de Simonal. A origem da cover de Simonal pode ser consultada no livro Nem vem que não tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal do jornalista Ricardo Alexandre. Segundo consta, nos intervalos do programa que apresentava na TV Record em 66, Simonal mantinha a platéia entretida fazendo piadas, imitações e cantando músicas despretensiosas. Foi numa destas ocasiões que surgiu a ideia de Simonal gravar sua própria interpretação de Meu Limão, Meu Limoeiro:


No site Discogs, é possível identificar que no disco Vou Deixar Cair a autoria da composição foi dada corretamente ao pernambucano José Carlos Burle.


Realmente, uma das primeiras gravações comercialmente mais exitosas de Meu Limão, Meu Limoeiro, realizada pela dupla Sylvio Caldas e Gidinho em 1937, carrega o nome de Burle em seus créditos.


Porém, ao se aprofundar nas pesquisas, não é possível afirmar quando teria sido composta e nem quem seriam os autores de Meu  Limão, Meu Limoeiro. Alguns pesquisadores acreditam que sua origem tenha raízes no folclore baiano, tendo sido recolhida pela primeira vez na década de 1910 pela pianista Carolina Cardoso de Menezes e Francisco Pereira, como podemos verificar neste link da Biblioteca Digital Luso Brasileira.

Coincidentemente, uma das primeiras gravações que traz Carolina Menezes e Francisco Pereira como autores é datada também de 1937, gravado pelo cantor Jorge Fernandes acompanhado da Orquestra do Maestro Odmar Amaral Gurgel (o Gaó):


Mais tarde, em 1951 a atriz brasileira, cantora e cineasta Vanja Orico participou do filme italiano Mulheres e Luzes (em italiano, Luci del Varietà), o primeiro longa metragem dirigido por Federico Fellini com a colaboração de Alberto Lattuada. Nele, Vanja faz o papel de uma cigana brasileira e em uma das cenas interpreta lindamente Meu Limão, Meu Limoeiro baseada na versão de Carolina Menezes e Francisco Pereira.


Nos registros online do Dicionario Cravo Albin da Música Popular Brasileira consta também que em 1959 a nossa querida e saudosa Inezita Barroso regravou Meu Limão, Meu Limoeiro baseada na versão de José Carlos Burle, colocando sua levada caipira para a canção: 



Voltando aos anos 60, pegando carona no sucesso de Simonal, seu parceiro e amigo de pilantragem, Carlos Imperial, com o seu grupo A Turma da Pesada – composto por um time de ótimos artistas pilantras e da pesada (no bom sentido) como Orlando Silveira, Wagner Tiso, Luiz Marinho e a dupla vocal Celma e Céliagravaram em 1968 o disco Pilantrália que continha um pot-pourri de Meu Limão, Meu Limoeiro com outros dois clássicos da música brasileira: Peguei Um Ita No Norte de Dorival Caymmi e Cabeça Inchada de Hervé Cordovil.

Confira Cabeça Inchada na interpretação de Solon Sales feita em 1949 com Mario Zan e seu Conjunto:


E aqui a interpretação de Peguei Um Ita No Norte feita pelo próprio Dorival Caymmi gravado em 1945:


Esta versão do grupo de Imperial fez um enorme sucesso também e explodiu nos países vizinhos como Argentina e Venezuela. Naquele mesmo ano de 1968, o cantor ítalo-argentino Billy Bond gravou sua versão em espanhol deste pot-porri em seu disco Yo, Billy Blond, corretamente indicando os créditos aos três compositores brasileiros, Burle, Caymmi e Cordovil, como podemos conferir aqui:



Ainda em 68, o cantor venezuelano Henry Stephen gravou uma adaptação em espanhol intitulada apenas Limon Limonero para este mesmo pot-pourri num estilo mais acelerado, misturando ritmos caribenhos. Nela, houve uma pequena modificação na letra original de Meu Limão, Meu Limoeiro, agregando a estória franceses e ingleses. Veja:

“Mi limón mi limonero
Entero me gusta mas
Un inglés dijo yeh yeh
Y un francés dijo la lá”


Das versões em espanhol, a de Stephen foi a que obteve mais sucesso, tendo inclusive um estrondoso sucesso na Europa. E acredito que foi a partir dela que começou a confusão sobre a autoria de Meu Limão, Meu Limoeiro. No site Discogs podemos ver que o single de 45 rotações de Stephan dá erroneamente crédito apenas a Carlos Imperial:


Talvez este erro se justifique pela versão da turma do Imperial para o disco Pilantrália, porém não conseguimos comprovar.

Pegando carona no sucesso do venezuelano, outros artistas europeus aproveitaram para fazer adaptações para o idioma de seus países de origem. Uma das mais inusitadas que podemos encontrar na internet é a versão do pot-pourri em finlandês feita pelo cantor Lasse Mårtenson em 1969. Confira aqui o vídeo com direito a legenda em finlandês:


Também de 1969 encontramos a indecifrável versão do grupo dinamarquês Keld & The Donkeys, Lena & Johnna para o pot-porri de Limon Limonero:


Curiosamente tanto a adaptação dinamarquesa quanto a finlandesa deram créditos apenas a Carlos Imperial, tudo por conta, ao meu ver, dos créditos incorretos da gravação de Henry Stephen.

Em 1969 também, o cantor Mats Olin gravou uma versão em sueco baseado na versão de Henry Stephen que fez muito sucesso.


Dez anos depois da versão de Olin, também na Suécia, foi gravada uma versão da versão feita especialmente para o desenho Os Smurfs chamada Citro Citronita, que lembra aquelas vozes dos esquilos Chipmunks. Confira:


É uma pena que o próprio Henry Stephen ou sua assessoria não saibam que se trata de três grandes clássicos da música brasileira. Em entrevista dada ao site Panorama em 2016, Stephen falou da magia que há em interpretar Limon Limonero em seus shows e o grande sucesso que ela faz até hoje com o público; mas nada falou sobre a origem da canção.

Para terminar esta overdose de Limon Limonero ou Meu Limão, Meu Limoeiro, temos a atriz e cantora mexicana Thalia, a famosa Maria das novelas Maria do Bairro, Maria Mercedes e Marimar, colocando toda sua desenvoltura e talento vocal em 1992 ao reinterpretar este sucesso brasileiro:


Portanto, já sabemos que é mais correto dizer que Meu Limão, Meu Limoeiro é original do folclore nordestino brasileiro. Os créditos aos seus possíveis autores estão aí para serem pesquisados e corretamente creditados. E se alguém por ventura te afirmar que a autoria de Meu Limão, Meu Limoeiro é de Simonal ou do Imperial, é só falar: “nem vem que não tem”! Ah! E também não é da Galinha Pintadinha...

Fontes:

Busca por "Limon Limonero" - Discogs. Disponível em: https://www.discogs.com/search/?q=limon+limonero&type=all - acessado em 30 de Março de 2018

SEVERIANO, Jairo e HOMEM DE MELO, Zuza. A Canção no Tempo - Vol. 1 - Instituto Moreira Sales, Editora 34 - Extraído do blog Cifra Antiga. Disponível em: https://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/04/meu-limo-meu-limoeiro.html - acessado em 31 de Março de 2018

JNS. A carreira da atriz, cantora e cineasta Vanja Orico - Jornal GGN. Disponível em: https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-carreira-da-atriz-cantora-e-cineasta-vanja-orico - acessado em 31 de Março de 2018

Busca por "Pilantrália" - Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pilantr%C3%A1lia - acessado em 30 de Março de 2018

Busca por "A Turma da Pesada (Banda)" - Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Turma_da_Pesada_(banda) - acessado em 30 de Março de 2018

CASTELLANO, Yesenia Rincón. Henry Stephen cuenta la historia de su hit Limón Limonero - Panorama.com.ve. Disponível em: http://www.panorama.com.ve/espectaculos/Henry-Stephen-cuenta-la-historia-de-su-hit-Limon-limonero-20160505-0073.html - acessado em 31 de Março de 2018

TELES, José. Will Holt (1929/2015), “autor” americano de Meu limão, Meu Limoeiro - Jornal do Comércio, Coluna "Toques". Disponível em: http://jc.ne10.uol.com.br/blogs/toques/2015/06/05/will-holt-19292015-autor-americano-de-meu-limao-meu-limoeiro/ - acessado em 30 de Março de 2018

Busca por "Meu Limão, Meu Limoeiro" - Biblioteca Digial Luso-Brasileira. Disponível em: http://bdlb.bn.gov.br/acervo/handle/123456789/26564 - acessado em 31 de Março de 2018

Busca por "Meu Limão, Meu Limoeiro Inezita Barroso" - Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: http://dicionariompb.com.br/inezita-barroso/discografia - acessado em 31 de Março de 2018

ALEXANDRE, Ricardo. Nem vem que não tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal - Editora Globo - Extraído do site Wikipedia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wilson_Simonal - acessado em 31 de Março de 2018

Agradecimentos:

Gilberto Inácio Gonçalves e Luciano Hortencio por disponibilizar no YouTube as raras gravações de Meu Limão, Meu Limoeiro.

Ao canal Memória Cinematográfica do YouTube que disponibilizou a cena de Mulheres e Luzes com a interpretação de Vanja Orico.

Persiolino

2 comentários:

  1. Bom dia , gostaria de ser colaborador é possível ?

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    1. Ola, boa noite, por favor, envie mais detalhes sobre o porquê você gostaria de ser colaborador do blog no email 1001covers@gmail.com. Também informe suas preferências musicais (estilos, bandas ou artistas que você curte) e a frequência com que vc gostaria de publicar no blog!

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