Cover History - A origem e as versões da canção Não Tenho Lágrimas


Ouvindo o rádio no carro, ontem, quase na hora do almoço, me deparo com o refrão “Quero chorar, não tenho lágrimas, que me rolem nas faces pra me socorrer (...)”. Não deixava dúvidas que se tratava do samba Não Tenho Lágrimas e, pela voz e o estilo, era o mestre Paulinho da Viola na interpretação.


No entanto, no mesmo instante, senti que já tinha a ouvido antes, mas não na voz de Paulinho. Mais tarde fui buscar na internet e lembrei-me de tê-la ouvido com Nat King Cole no disco A Mis Amigos de 1959 por conta de uma pesquisa sobre covers para a música Perfidia, o famoso bolero de Alberto Domínguez

A Mis Amigos é um excelente trabalho que contém interpretações impecáveis cantadas em espanhol – como é o caso de Perfidia – bem como em um bom português carregado de "sotaque gringo" – como em Não Tenho Lágrimas.


Entrando mais a fundo, pude comprovar que este samba foi um dos mais conhecidos nos EUA durante os anos 1940 e 1950. Contudo, sua história se inicia com uma grande dúvida: quem seria o real co-autor de Não Tenho Lágrimas?

Segundo pesquisa realizada pelo site Jornal GGN, não há dúvidas quanto a autoria da primeira parte da canção, feita por Max Bulhões em 1932. Porém, conta a história que certo dia Max pediu a ajuda de Wilson Batista (outro grande compositor de sambas inesquecíveis como O bonde de São Januário), para escrever a segunda parte. E, assim, Wilson Batista assumiu o compromisso e fez a segunda parte rapidamente, um dia depois do tal pedido de Max Bulhões. 

Após sua concepção final, Não Tenho Lágrimas foi oferecida aos cantores Leonel Faria e Gastão Formenti, mas nenhum deles se interessou em gravá-la. Somente cinco anos após seu nascimento, Não Tenho Lágrimas foi gravada pelo cantor Patrício Teixeira, que a gravou juntamente com a música Sabiá Laranjeira, outra canção de autoria de Max Bulhões. Contudo, na gravação de Não Tenho Lágrimas não se vê o nome de Wilson Batista nos créditos. E para surpresa maior do sambista, outro nome aparecia como co-autor: era o de Milton de Oliveira

Numa outra pesquisa feita pelo blog Musicaria Brasil, há indícios de que Não Tenho Lágrimas tenha sido um caso de “venda samba”, uma prática comum daqueles tempos. E, neste caso, Max Bulhões vendeu Não Tenho Lágrimas para Milton de Oliveira, que por sua vez a ofereceu a Patrício Teixeira. Como quem comprava os direitos ganhava os créditos de co-autor, este famoso samba ficou oficialmente sendo de co-autoria de Milton deixando Wilson Batista sem crédito algum nessa história. Milton sempre negou tal compra dizendo que ele mesmo a compôs juntamente com Max.


Se toda esta história quanto a co-autoria é verdade ou não, nunca saberemos. Só sabemos mesmo que no carnaval de 1938 Não Tenho Lágrimas alcançou um estrondoso sucesso no Brasil. 

Durante os anos 1940 no governo Vargas, quando o samba ganhou o status de música nacional, que Não Tenho Lágrimas expandiu seu sucesso para o público norte-americano. Isto porque o governo de Washington estava convencido da necessidade de proteger sua posição internacional e, a partir de medidas nas áreas econômicas, políticas e culturais, se aproximou de Getúlio Vargas e dos presidentes brasileiros seguintes para, primeiramente, eliminar uma possível influencia nazista no país, e, após a vitória americana na Segunda Guerra Mundial, enfrentar o comunismo na América Latina. 

Desta empreitada surgia o Office For Inter-American Affairs que realizou esta aproximação, levando principalmente a música brasileira para os gringos como uma política de "boa vizinhança e amizade" entre os países. Com o sucesso de Aquarela do Brasil de Ary Barroso no desenho Alô, Amigos (1942) de Walt Disney e a ascensão da "Pequena Notável" Carmen Miranda na Broadway e no cinema americano, os singles de 45 rpm de samba começaram a ser vendidos aos montes no mercado fonográfico dos EUA. Desta feita, o estilo também se aproximou dos músicos americanos, primeiramente, influenciando as Big Bands.

Foi neste momento que o letrista Ervin Drake começara a adaptar para o inglês diversas músicas latinas. Seu primeiro grande sucesso como letrista foi com a adaptação lançada em single no ano de 1945 do sucesso Tico-Tico No Fubá de Zequinha de Abreu introduzido por Carmen Miranda e gravado versão em inglês pelo grupo vocal The Andrew Sisters. O single, que vendeu aproximadamente 1 milhão de cópias ao redor do mundo, credenciou Drake como um especialista em adaptações de música latinas para o inglês. Por esses fatos, a adaptação de Não Tenho Lágrimas para o idioma do Tio Sam é de autoria de Drake em parceria com Jimmy Shirl.

Com o título Come To The Mardi Gras, logo o samba de Max Bulhões e Wilson Batista (ou de Milton de Oliveira) ganhou as rádios norte-americanas. Em nossas pesquisas não encontramos qual artista americano foi o primeiro a gravá-la, porém, em pesquisas realizadas no site Discogs, é possível verificar que uma das primeiras é datada de Maio de 1947 feita pela Big Band liderada pelo saxofonista Freddy Martin contando com os vocais do grupo Stuart Wade and Ensemble


Em Dezembro de 1947, outra gravação de Come To The Mardi Gras foi feita pelo excelente ator e cantor Bing Crosby, que a interpretou na abertura do seu programa semanal Philco Radio Time na ABC Radio:


Uma versão também bastante interessante é a de Henry Mancini e sua Orquestra, feita em 1965. O grande arranjador, compositor e pianista mundialmente conhecido por ter produzido temas inesquecíveis para filmes extraordinários (como Moon River, canção tema do filme Bonequinha de Luxo, e a trilha de A Pantera Cor-de-Rosa cujo trabalhou ganhou o Oscar de 1963 de melhor trilha sonora original), gravou em 1965 um disco chamado The Latin Sound of Henry Mancini que contém uma versão instrumental de Não Tenho Lágrimas.


Além da fazer sucesso em terras do tio Sam, o samba de Max Bulhões e Milton de Oliveira também foi adaptada para o idioma francês. Por lá a música recebeu o título Un Soir de Carnaval e a adaptação ficou por conta do compositor Jacques Larue. Uma das primeiras gravações desta adaptação em terras francesas foi feita pelo grupo de música cubana residente em Paris chamado Rico’s Creole Band em 1948.


Em 1968 o grande Wilson Simonal gravou Não Tenho Lágrimas esbanjando toda sua maestria vocal numa melodia muito mais suingada, no seu característico samba-soul / samba-funk, bem diferentes das outras versões desta música.


Mais recentemente e bem menos conhecida do grande público é a versão de Seth MacFarlane com Liz Gillies para este clássico da música brasileiro. O criador do Family Guy e a jovem atriz que interpretou a personagem Jade West na série Victorious lançaram em 2021 o álbum Songs From Home que traz clássicos do jazz standards norte-americano. Neste trabalho eles regravaram a versão em inglês de Não Tenho Lágrimas (Come To The Mardi Gras) praticamente idêntica a versão feita em 1965 por outra ótima dupla, Bing Crosby e Rosemary Clooney. Confira as duas versões:



Por fim, comprovando todo o sucesso mundial de Não Tenho Lágrimas, é possível encontrá-la numa das cenas de Touro Indomável, famoso filme de 1980 dirigido por Martin Scorsese e que deu a Robert De Niro o Oscar de melhor ator. Perceba a música original interpretada por Patrício Teixeira colocada ao fundo mais ou menos no segundo 0:33 da cena: 


É interessante notar que o roteiro de Touro Indomável foi baseado na história do pugilista ítalo-americano Jake LaMotta que lutou nos ringues entre os anos 1940 e 1950, justamente na mesma época em que os sambas brasileiros como Não Tenho Lágrimas eram nossos melhores "produtos de exportação" e ajudavam nas relações internacionais entre Brasil e EUA.

Fontes:

Busca por "Não Tenho Lágrimas" - Discogs. Disponível em: https://www.discogs.com/search/?track=%22N%C3%A3o+Tenho+L%C3%A1grimas%22&type=release - acessado em 20 de Julho de 2019

Buscar por "Come To The Mardi Gras" "Freddy Martin" "Billboard" - Billboard. Disponível em: http://bit.do/e2FRN - acessado em 21 de Julho de 2019

Busca por "Ervin Drake" - Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ervin_Drake - acessado em 21 de Julho de 2019

Busca por "Come To The Mardi Gras" - Discogs. Disponível em: https://www.discogs.com/search/?track=%22Come+To+The+Mardi+Gras%22&type=release - acessado em 20 de Julho de 2019

Busca por "Un soir de Carnaval" - Discogs. Disponível em: https://www.discogs.com/search/?track=%22Un+Soir+de+Carnaval%22&type=release - acessado em 21 de Julho de 2019

Busca por "Come To The Mardi Gras" - Old Time Radio Downloads. Disponível em: https://www.oldtimeradiodownloads.com/variety/bing-crosby-philco-radio-time/2 - acessado em 21 de Julho de 2019

Busca por "Raging Bull soundtrack" - IMDb. Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0081398/soundtrack - acessado em 20 de Julho de 2019

Autor desconhecido. Ervin Drake obituary - The Telegraph. Disponível em https://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/11372789/Ervin-Drake-songwriter-obituary.html - acessado em 21 de Julho de 2019

VIERA, Paulo.  O amor de Nelson Rockefeller pelo Brasil e pelo sexo oposto - Glamurama. Disponível em: https://glamurama.uol.com.br/revista-poder-o-amor-de-nelson-rockefeller-pelo-brasil-e-pelo-sexo-oposto/ - acessado em 21 de Julho de 2019

HORTENCIO, Luciano. As lágrimas não choradas de Wilson Batista - Jornal GGN. Disponível em: https://jornalggn.com.br/memoria/as-lagrimas-nao-choradas-de-wilson-baptista/ - acessado em 21 de Julho de 2019

Autor desconhecido. Milton de Oliveira 100 Anos - Blog Musicaria Brasil. Disponível em: https://musicariabrasil.blogspot.com/2016/02/milton-de-oliveira-100-anos.html - acessado em 21 de Julho de 2019

Autor desconhecido. Morre Jake LaMotta, boxeador que inspirou Touro Indomável. Revista Veja. Disponível em: https://veja.abril.com.br/esporte/morre-jake-lamotta-boxeador-que-inspirou-touro-indomavel/ - acessado em 21 de Julho de 2019

CARVALHO, Gabriel. Alô, Amigos - Plano Crítico. Disponível em: https://www.planocritico.com/critica-alo-amigos/ - acessado em 22 de Julho de 2019

Postar um comentário

0 Comentários
* Por favor, não publique Spam. Todos os comentários são revisados pelos administradores.